COMO ERA SER PM NOS ANOS OITENTA EM SÃO PAULO
Não havia reconhecimento da população, o que havia era uma espécie de medo
misturado com respeito, não havia um bom salário. Para ser um
PolicialMilitar na minha época tinha que ser muito macho
"AQUI OS MELHORES SÃO APENAS BONS"
Com uma frase dessas, não precisa dizer mais nada de como era ser Polícial Militar nos anos oitenta não é verdade? Era preciso, além de coragem, muita disposição. Disposição de sobreviver com o salário, disposição de acatar ordens, as vezes absurdas, disposição de enfrentar um público nada amistoso.
Armamento pífio e viaturas sucateadas. E pra piorar: Fusca de dupla carburação a álcool. Não existia coletes a prova de 'balas' e muito menos as pistolas ponto quarenta de hoje. Mas enfrentávamos o crime de maneira sólida e com eficácia.
Hoje a Polícia Militar em todo o Brasil está mudada: armamentos novos e
funcionais, coletes a prova de balas, viaturas novas e bem equipadas e o
principal, salário compatível com a função.
No tempo em que fui PM (eu entrei em 1984), não havia concurso. Era 'inscrição'.
Eu me encontrava desempregado, estava difícil arrumar um novo emprego e aí eu
pensei: porque não ser Policial Militar?
Fui até a Praça da Sé, centro de São Paulo e lá conversei com PMs que patrulhavam o local. Eram tempos difíceis. Nesse local, assim como no Viaduto do Chá e Largo do Paissandú, os 'Trombadinhas' impunham o terror.
Perguntei como faria para ser um Policial Militar e o PM encrregado da viatura me disse: "Vá a Avenida Cruzeiro do Sul, Canindé, lá no 'Panelão', é lá que estão sendo feitas as inscrições".
Fui correndo, na mesma hora... Chegando lá, havia meia duzia de 'malacabados' e eu me juntei a eles. Nessa época eu parecia um 'Papa-Capim'. Magrooo... Inclusive, quando chegou a minha vez de ser atendido o atendente me perguntou se eu tinha certeza que queria ser PM. Respondi com entusiasmo exagerado: 'Quero sim senhor'.
Por ter servido a Aeronáutica em Recife (serviço Militar obrigatório) eu já hagia como Militar. E o atendente me vendo na figura de uma Lagartixa pernambucana desnutrida completou: "Você está fazendo teste para entrar numa garrafa? Vai ser magro assim lá longe..."
Ignorei a piada e me inscrevi. Lembro com orgulho: no Dia 7 de agosto de 1984, lá chegava eu, num caminhão Pau de Arara, no 7°BPM/I, em Sorocaba, SP, para ser formado.
Se passaram sete meses e eu consegui realizar o meu sonho: ser um 'Meganha' (era assim que o PM era chamado na época). Dependendo da nota alcançada na prova final, a gente poderia escolher a unidade onde iria servir.
Eu escolhi o 11° BPM/M e servi na na Segunda Cia PM, bem perto de onde
residia. Era um tanto quanto perigoso patrulhar o bairro onde mora. Todos me
conheciam. Inclusive os 'malas'. Era rota obrigatória passar em frente ao meu
prédio, no Glicério, local muito perigoso na época, e até hoje.
Há uma passagem que marcou a minha vida na PM: um parto que fiz em 1986.
Havia acabado de assumir o serviço de patrulhamento quando o COPOM me passou
a ocorrência: uma mulher em trabalho de parto num cortiço na Avenida Lins de
Vasconcelos no Cambuci.
Chegando ao local só deu tempo de amparar a criança que já estava nascendo.
Após os procedimentos de praxe, conduzi mãe e filho até o Hospital Cruz
Azul.
Quando saí do serviço fui visitar a parturiente e tive uma grata e curiosa
surpresa: a mãe, que passava bem e a criança idem, havia colocado o nome de
'Stivie' na criança em minha homenagem.
Acontece que 'Stivie' era um codinome usado por nós PMs da época afim de
ocultar o nosso verdadeiro nome. Foi uma situação engraçada mas muito bem
aplaudida. Me considero 'parteiro' desde então.
Veja imagens da PM naquela época. 👇
De uma coisa eu não posso esquecer: o respeito que a população tinha para
conosco era grande. Lembro que usávamos a Farda com muito orgulho, tanto
de serviço, quanto de folga. Éramos 'Auroridades' até a ocorrência chegar
na Delegacia.
E assim como é hoje, era ontem: mais de setenta por cento da população não gostava da gente. Nos 'engolia' por ser um mal necessário. Isso dói na alma. Seria muito bom ser reconhecido como 'Salvador da Pátria' mas, contava-se nos dedos os que nos via dessa forma.
POPULAÇÃO DA ÉPOCA: RESPEITO OU MEDO?
E assim como é hoje, era ontem: mais de setenta por cento da população não gostava da gente. Nos 'engolia' por ser um mal necessário. Isso dói na alma. Seria muito bom ser reconhecido como 'Salvador da Pátria' mas, contava-se nos dedos os que nos via dessa forma.
De qualquer maneira isso não nos diminuía, e muito menos nos desanimava,
ao contrário, nos fortalecia porque todo dia tínhamos que provar que
éramos bons. Até pra fazer jus a frase:
Polícia Militar do Estado de São Paulo, aqui, os 'melhores' são apenas
'bons' (peguei a frase emprestado da ROTA).
À todos os Policiais Militares de todo o Brasil, meu respeito e minha consideração. Somos heróis sim 'manos'. Queira ou não a população, somos HERÓIS sim. Somente Deus e nós sabemos o que é ser um Policial Militar.
À todos os Policiais Militares de todo o Brasil, meu respeito e minha consideração. Somos heróis sim 'manos'. Queira ou não a população, somos HERÓIS sim. Somente Deus e nós sabemos o que é ser um Policial Militar.
Se você escolheu ser um PM, lembre-se o que significa essa escolha:
abrir mão da sua vida pela vida dos seus. Honre a profissão com toda
força do seu coração.
Amauri Bezerra
Amauri Bezerra






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